terça-feira, 3 de agosto de 2010

O Choro do Palhaço

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O que um dia foram meras gotas na janela, transformaram-se em dilúvio...
Era ele pela rua, adentrando à noite escura. O pior era o temor de ver seu reflexo em uma poça formada na avenida. Ali sem abrigo. O Universo o expelia, o Universo o expeliu para o seu universo particular...
Mas, ele não cabe no formato universal.
Era extenso demais.
Sua roupa colorida, com listras descombinantes, cheia de babados assimétricos está ensopada. A peruca cacheada, que já estava desgastada, agora se encontrava com cabelos escorridos e certamente mofarão com essa excessiva umidade.
Na rua alagada ele só vê pés, não ousaria levantar a cabeça e deixar que vissem que sua maquiagem se borrou. A boca perfeitamente desenhada de outrora era agora um borrão branco sujo. Precisou tirar o nariz de plástico vermelho, porque com tanta água no seu rosto não podia respirar só pela boca.
Pelas esquinas ele se impunha, torcendo ser hoje o dia que um carro não paralisasse seu motor e o acertasse. Mas, não havia carro que não o notasse.
Era grande demais.
Então ele só queria sua casa, as roupas chamativas e empapadas o incomodavam.
Era ele a alegria feroz de varias pessoas. A felicidade demoníaca daqueles que cabem perfeitamente no formato Universal, era ele.
O Palhaço Triste só queria a sua casa.
Andava sem rumo, ruas e ruas, cruzamentos e cruzamentos, mais se arrastava do que andava. Parar que era perigoso. Se parasse, poderiam notar que seu sapato engraxado e lustrado, não mais tinha solado, e seus pés estavam gastos.
Da sua desmedida desolação ele só queria que fosse disfarçado.
Alguém, na calmaria quente e seca de uma marquise, disse em meio a risadas explosivas: Que coragem, hein, palhaço! Mas, não era coragem, era o temor. O escuro. A chuva. O medo. Ele não se encaixava no universal.
Era vasto demais.
A verdade, sem pudor, é que o gerador de risadas, tinha chorado. Constantemente, chorado.





quarta-feira, 19 de maio de 2010

...E a gente acha que conhece os sentimentos alheios...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ela ri. Enquanto chora. Fica Muda. Enquanto muito fala. Grita. Quando silencia. Escreve. Quando desenha. Nega. Quando diz sim. Chora. Enquanto ri. Sente-se só. Enquanto se rodeia de multidões. É corajosa. Enquanto sente medo. Acende a Luz. Enquanto se apaga. Odeia. Mas, na verdade ama.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O palhaço triste e o meu eu - (3)

segunda-feira, 10 de maio de 2010
Tudo bem. È que ainda me assusto. É que ainda nem sequer contei tudo. Não mencionei que, por vezes me sento imóvel, como se não participasse do mundo, apenas o observasse. Observasse como quem se encontra além do dualismo, e como se me fosse permitido ignorar as particularidades e mergulhar em julgamentos. Isso. Como se eu pudesse concluir sentenças por meio das minhas observações. Me sento imóvel e observo um palhaço triste. Um grande palhaço triste. E eu sabia que enquanto eu o observava o mundo me escaparia e eu me escaparia. Pois observava-lo era engraçado, quase me explodia em risos. E rir me contradiria, contradiria em mim a minha substancia. Então, aquilo que, por respeito a mim, eu não queria rir, então eu ri. Não tolerei me interromper, e ri. O que na verdade eu já estava rindo.
 Só haveria um modo de me impedir. Era sê-lo. Como se o pecado da risada, me absolvesse, e até mesmo se tornasse um antipecado, a partir do instante, que ele (o palhaço triste) fosse eu. 
Estaria eu alargando demais a risada e toda a coisa, para exatamente ultrapassar o palhaço e o meu eu? Acho que não. No entanto, ao me transformar nele, prossigo em sentido oposto. Em rumo a aniquilação do que arduamente construí. Prossigo em rumo a despersonalização. Sim. De repente, me despersonalizar torna-se meu ideal. Despersonalizar-me é a minha manifestação máxima, que tão logo, nem sequer poderia chamar “minha”. Se, finalmente, me alcançar pelo ato de despersonalizar, poderei reconhecer o alheio sob qualquer aparência ou disfarce. E, verei não mais a maquiagem estereotipa do palhaço triste, mas o humano comum a todos os humanos. E pela simples existência dele, me será revelado quem sou.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Palhaço Triste- 2

quarta-feira, 5 de maio de 2010
É uma coisa. Não, não. É um rapaz. Quieto. Se bem que de vez em quando ele fala. É! Acho que fala sim. É! Isso! Ele fala sozinho. Até isso é engraçado. Ele senta por ali ó. Encurralado naquele canto. Sem mais nem menos. É muito engraçado. Qualquer coisa que ele faça é engraçado.
Ele já deve tá chegando, acho que todo dia ele vem. É! Não me lembro dele faltar alguma aula. O quê??? Você tá brincando? Ele suicidou? Já fazem três dias?
 Que engraçado...
 
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